Aprendi a coreografar com os ossos da exumação de minha mãe.
Ao tentar encontrar com ela debaixo da terra, me deparei com um emaranhado de corpos que existem para além de seus contornos físicos.
Práticas de Exumação investiga a criação de ambientes coreográficos onde o convívio entre vivos e mortos desafia os limites do corpo. Pesquisa que realizo desde 2018 na qual a coreografia toma forma no vídeo, na performance e na escultura.
São ecossistemas que permitem coreografar a partir da lua e das marés, do som, da luz do sol ou da respiração de um corpo inerte. É uma perspectiva sobre o que coreografia pode ser, considerando a vibração, a ascensão e o desaparecimento como movimentos que emergem destas matérias.
Em cada projeto, construo ambientes que abrem a percepção para movimentos até então invisíveis.
São arranjos que funcionam para conectar o intraterreno e o cosmos, entre elementos deslocados da natureza que fazem a integração entre o corpóreo e o espiritual:
redes de pesca que se transformam em âncoras e arapucas, seja para sustentar um corpo ou suspender um chão de terra com nome de pessoas mortas; sinos de vento que acompanham uma sinfonia de despedida e a respiração de um corpo inerte; ou ainda, a luz do sol que marca a temporalidade do movimento das marés e também dissolve a imagem de animais que fazem companhia aos mortos.
O que me interessa é deslocar a autoria do movimento do corpo humano para as relações entre matérias.
Práticas de Exumação é uma maneira de compreender coreografia como criação de condições para ampliar a percepção de onde pode começar e terminar um corpo. São ambientes coreográficos que insistem em fazer emergir movimento onde aparentemente já não há, onde coisas sem nome podem dançar.